«A lentidão da imagem» (I)

2005-01-31

Oh Que Ricos Dias (2003) - fotografia de Helena Costa;
As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos (1996/2005) - fotografia de Ramon de Melo;
A Casa da Boneca (2004/05) - fotografia de Luís Rocha
 
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«A lentidão da imagem»

 
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2005-01-30



"A corrupção favorece as ideias novas"
Teixeira de Pascoaes



 
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«Ninguém se mexa! Mãos ao ar» (VI)

O LUNA-PARQUE

Recordo-me perfeitamente. Era esplêndido, ir aos sábados ao Luna-Parque com a família.
Logo à entrada havia uma série de barracas de tiro ao alvo, com meninas simpáticas a chamar pela gente. Foi aí que o primo Rodrigo, ao disparar com o canhão de 12, se enganou e ficou sem cabeça.
Havia também carrinhos com amendoins, sorvetes e aquele algodão de açucar que nos deixava todos lambuzados. Sopeiras e magalas aos pares, de mão dada, a olhar para tudo. Vejam lá há quanto tempo isto foi!
E a Montanha Russa! Ah, a Montanha Russa, como eu gostava de andar nela! Um sábado íamos todos na Montanha Russa. No meio do entusiasmo, o tio Leocádio deu um empurrão à avó Amélia, lá mesmo no alto da maior subida. Sem querer. Esborrachou-se toda cá em baixo, pobre avózinha. Tivemos pena.
Era realmente divertido. Nessas tardes fartava-me de comer tremoços e até bebia o meu pirolito.
Havia também a Grande Roda. Lá em cima via-se o Parque todo, ouvia-se a musiquinha que nos chegava como um som de distância. Era bonito. Certa vez, quando estávamos já na segunda volta, a tia Clarinda inclinou-se para ver melhor e ficou entalada nas engrenagens. Deu um certo trabalho a tirar dali os restos, coitados dos empregados.
No Comboio Fantasma foi-se o tio Geraldo. À saída, quando as portas se abriram e nos libertámos daquela escuridão medonha onde toda a gente dava gritinhos, demos por falta dele. O meu pai disse-me discretamente que devia ter sido um esqueleto que o apanhou. A verdade é que nunca mais o vimos.
E o papagaio que tirava a sina, lembram-se? Metiam-se dez tostões numa caixinha e o papagaio lá ia com o bico, zás, buscar a nossa sina. Como era engraçado!
Mas divertido, divertido mesmo, era o Grande Chicote. Levava-se cada safanão! Os carros batiam uns contra os outros e fartavamo-nos de rir. O Zezito, o filho da tia Josefa, levou um safanão tal que partiu a espinha. Era bom. Que saudade!
Depois comiam-se também umas farturas e eu até tinha direito a um copinho de abafado.
Quando chegava Outubro, com a melancolia das primeiras chuvas e as folhas douradas começando a cair das árvores, o Luna-Parque fechava e eu ficava já a pensar no ano seguinte.
Então o meu pai fazia as contas. Além de nós ali em casa, ainda sobrava o tio Inácio do Ministério, o primo Jerónimo que estava no Brasil, a prima Josefina que depois casou com o Clarimundo da Fonseca, devem estar lembrados, e mais alguns. A família, por esses tempos, era grande, graças a Deus.
Há quantos anos!
Como o tempo passa!


Mário-Henrique Leiria
 
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«Ninguém se mexa! Mãos ao ar» (V)

2005-01-28
A MINHA QUERIDA PÁTRIA

a pátria
os camões
os aviões
e os gagos-coutinhos
coitadinhos

a pátria
e os mesmos
aldrabões
recém-chegados
à democracia social
era fatal

a pátria
novos camões
na governança
liderando
as mesmas
confusões
continuando
mesmo assim
as velhas tradições
de mau latim
da Eneida

enfim
sabem que mais?
pois
vou da peida

Mário-Henrique Leiria
 
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Oh Que Ricos Subsídios! (V)

2005-01-27
A CTC desanca nas ridículas actas do IA do MC

Candidatura 020 (ou «Festival de Teatro de Almada»)

Brrrrr, que frio! Mas cá estamos nós de volta para vos aquecer a alma com mais uma acta da Ana Marin (ámen), do IA. Sim, porque IA significa «Instituto da Ana» e a Ana é uma mulher muito bem lançada: primeiro, foi lançada pelo Mário Barradas na Secretaria de Estado da Cultura (na época em que isto era tudo do PC) e, muitos anos depois, veio o Carrilho e lançou-a no estrelato!
Um dia destes a gente explica isto melhor. Hoje vamos voltar à margem Sul, depois do êxito que foi a nossa passagem pelo Vale de Barris. Em Almada está a Companhia de Almada «solidamente implantada», sob a direcção do Joaquim Benite, como a acta explica aos ignorantes. O Joaquim recebeu do IA um benite subsídio: 550.000€, que é como quem diz 110 mil pacotes em moeda arcaica.
E porquê tanta massa? Porque a Companhia de Almada não é só uma companhia, muito menos um batalhão, é uma tropa inteira! Nada menos de 20 pessoas mais 4 actores recrutados especialmente para 2005 «por razões de repertório», anuncia a acta. A tropa é do mais moderno que há e está organizada ao estilo do exército americano. Na direcção artística estão 2 marechais, o Benite, que é o Colin Powell, e um anónimo à paisana no difícil papel de Donald Rumsfeld. Na «gestão» trabalham 2 generais de 5 estrelas a tempo inteiro; a infantaria é composta por 5 actores permanentes, auxiliados pela artilharia de 4 coronéis do «sector técnico»; mas onde se vê a sofisticação do grande exército almadense é no grupo de operações especiais destinado a missões de alto risco. Anotem: no «sector de público» alistaram-se 2 majores «que analisam a relação de cada produção com um público alvo» (bombardeamento cirúrgico); o departamento de «promoção» conta com 2 tenentes especializados «para contacto com os meios de comunicação social» (CNN, New York Times, Al-Jazeera, etc.); na «distribuição» operam 1 capitão e 1 sargento vocacionados em exclusivo «para pesquisa de mercado» (guerra económica); e, por fim, 1 único furriel senta-se na secretaria e assegura o êxito das operações de transmissão, reabastecimento e logística.
Instruído pelo Ministério da Defesa (o Paulo Portas em pessoa!), o IA reconhece as dificuldades destas macro-organizações e diz que tudo isto «revela um modelo de gestão algo oneroso, embora eficiente». Cá está: a eficiência é o grande critério das máquinas bem oleadas que são os exércitos do século XXI! Paga-se um balúrdio aos magalas, mas anda tudo ali em sentido que é uma beleza! Um, dois, esquerdo, direito, marche!
Agora não digam que 110 mil contos é muito. Não é. O cacau é pouco, porque o marechal Benite tem a seu cargo a «organização do Festival Internacional de Teatro de Almada» que, diz a Ana, «vem crescendo em qualidade» e também em quantidade, a ponto de já ter tentáculos na margem Norte, invadindo o CCB, a Culturgest, o Trindade, o Taborda e o S. Luiz! (Só falta o D. Maria do Bairro Alto, que não tem detecção de incêndios nem acesso para deficientes, uma vergonha.) O marechal Benite pediu ao IA, só para o Festival, a módica quantia de 425.000€, que era a diferença entre «despesas previstas (866.000€)» e «receitas igualmente previstas (441.000€)». O IA do MC, na sua bondade, disse que sim: 425.000€ para o Festival e ainda levam uma gorjeta de 125.000€ para o resto. Satisfeitos?
Ora, o marechal Benite tem uma programação perfeita para fazer com 21 mil contos: Shakespeare, Bulgakov, Pushkin, Molière, Miguel Real, Jaime Rocha, tudo coisas simples. Uma das peças anunciadas é o Power do Nick Dear, sobre o Luís XIV, e faz-se na maior com 500€, mais coisa menos coisa. A Companhia de Almada é conhecida pelas suas encenações vanguardistas e a Ana de Áustria descalça e com uma túnica preta fica a matar! O Luís XIV com uma lanterna na tola, a fingir que é o Rei-Sol, e vai disto que é feira! A Irmã Lúcia vai delirar!
O IA também informa que o marechal Benite vai fazer pela primeira vez em Portugal qualquer coisa de «Carol Frechètte», o que é de facto uma revelação: Carol Frechètte é um famoso acupuncturista e trabalha numa célebre academia de medicina chinesa! O IA já patrocina terapias orientais na margem Sul?! Ou será que o IA queria dizer Carole Fréchette, a conhecida dramaturga canadiana autora das Quatro Mortes de Maria? Tudo é possível neste mundo esquisito da Ana Marin (ámen)!
Também ficamos a saber, pela acta, que o marechal Benite vai encenar Howard Barker. Será o épico de 6 horas de duração intitulado The Ecstatic Bible? Isto no Festival de Almada dava cá um sainete! Com o marechal Benite a dirigir metade, e a outra metade dirigida pelo seu marechal-de-campo que aproveitava para se tornar conhecido e sair do anonimato! No Festival de Adelaide (que é na Austrália) foi um êxito, com aborígenes a fazer de Cristo, Judas, Moisés, a cambada toda!
E mais: no espírito da velha Associação de Amizade Portugal-URSS, o marechal vai à Rússia encenar o D. Quixote, enquanto um tal Vladislav Pazi (este gajo não era do KGB?) vem a Almada encenar o Boris Goudonov. No intervalo, os dois marechais vão trocar números antigos da Vida Soviética e conversar sobre os malefícios do capitalismo imperialista e recordar o genial Brehznev. Isto faz-se com 1000€, no máximo dos máximos 1.500€ (3.000.000 de rublos ao câmbio actual).
Mas a grande e exultante novidade para 2005 é que o marechal Benite vai fazer «uma re-encenação de Othello», em co-produção com a Companhia Teatral de Faro. O IA não diz, mas a gente adivinha que isto é para a Capital Nacional da Cultura, que está a ser um êxito fenomenal (com toda a gente a apoiar e nem pensam noutra coisa!). A estreia será depois do Verão, que é para o actor principal poder apanhar o bronze indispensável para o papel do Moiro de Veneza (Veneza ou Tavira, tanto faz).
Quem se admira que a presidenta da Câmara apoie a Companhia de Almada com tudo e mais alguma coisa? Viva a presidenta! Viva o Benite! Viva a Ana Marin! Viva o IA, yá meu, isto é muita bom!!!!!
E VIVA PORTUGAL!!
 
posted by CTC at 13:42, |

«Ninguém se mexa! Mãos ao ar» (IV)

Teatro

Nenhuma arte tem de falar para todos a não ser o teatro.
Grandes e pequenos, instruídos e analfabetos, sábios e ignorantes, no teatro todos são Um, e por conseguinte só o que interessa o Único pode ser agradável a todos.
A origem da palavra teatro refere-se à disposição em hemiciclo dos lugares dos espectadores, de maneira que de qualquer lado cada um possa seguir a cerimónia pública.
Por isso o teatro não pode desculpar-se com nenhuma espécie de ignorância, seja a que moleste os sábios, seja a que não ensine os ignorantes.
Não é apenas a arte dramática que pode ser considerada como teatro. As primeiras cerimónias públicas de teatro eram ofícios religiosos e só depois começou a fazer-se a diferença entre o templo sagrado e a comédia profana.
Estimando a origem desta palavra, ficamos sabendo que toda a arte ou qualquer outra linguagem que passa do particular para o geral, faz imediatamente teatro.
Que cada um tenha uma arte que é a maneira de apurar o seu próprio gosto, a ninguém compete julgá-la; mas quando destine ao público a sua arte, desde esse momento é o publico a servir-se e o artista quem serve.

Almada Negreiros
 
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As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos (I)

2005-01-25

na fotografia João Carracedo - fotografia de Ramon de Melo

João/Hamlet
«"Que Deus te perdoe. Eu sigo-te."
"Vós, que vos tornais pálidos e trémulos perante esta ocorrência
Que não passam de membros mudos de um público que assiste a este acto";
"Se alguma vez me tivestes nos vossos corações,
Adiai um pouco a vossa felicidade,
E neste mundo cruel contenham dolorosamente a vossa respiração
Para contar a minha história."
"O resto é silêncio."»

As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos (Adam Long, Daniel Singer e Jess Borgeson)
 
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«Ninguém se mexa! Mãos ao ar» (III)

Actuação Escrita

Pode-se escrever

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever


Pedro Oom
 
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A Casa da Boneca Henrik Ibsen (III)

2005-01-24

na fotgrafia Vanessa Agapito - fotografia de Luís Rocha

"Mas agora vou começar a aprender pelos meus próprios meios. Vou tentar descobrir quem tem razão: o mundo ou eu" Nora, A Casa da Boneca (Ibsen)
 
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A Casa da Boneca Henrik Ibsen (II)


na fotografia Vanessa Agapito e Simão Rubim - fotografia de Mariana Veloso

Helmer - Nora, Nora, és mesmo mulher! (...) Nada de dívidas! Nunca pedir emprestado! Um lar que assenta em empréstimos e dívidas perde algo da sua liberdade - e da sua beleza também... Até agora, temo-nos aguentado bem os dois. E vamos continuar assim durante o pouco tempo que ainda é preciso.

[...]

Helmer - (...) Nora, adivinha o que tenho aqui.

Nora - Dinheiro!

A Casa da Boneca (Ibsen)
 
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«Ninguém se mexa! Mãos ao ar» (II)

2005-01-22
Comédia

Noite irrequieta
e só o homem.
O mundo vestido de entreactos
que nunca esquecem.

Grande a paisagem
que não exibe
pobre, ocioso
como o demónio

Este sim – vertigem –
queiram ou não queiram.
Visão quimérica a lembrar ausência,
o tímido abstracto vário
arlequim de asas.

Ruy Cinatti
 
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Oh Que Ricos Subsídios! (IV)

2005-01-21
A CTC arreia até doer nas actas do IA do MC!

Candidatura 039 (Sony©, sistema «Sensurround©»)

Olá! Lembram-se de que actas é que estamos a falar? São as actas dos subsídios ao TEATRO. Do Instituto das Artes (IA). O IA sabe o que é TEATRO, não sabe? Esta acta deixa sérias dúvidas, a menos que o IA seja uma extensão do movimento surrealista e a Ana Marin (ámen) seja o André Breton reencarnado. Ora oiçam.
O IA deu 100.000€ (20 mil contos, moeda velha) à Lúcia Sigalho, que dirige uma coisa chamada Sensurround. A Lúcia explicou ao IA que o «seu trabalho» é «eminentemente experimental», servindo eminentemente para «reinventar possibilidades, em virtude de uma capacidade imaginativa, sobre um fundo de irrequietude e ironia». Nós ficámos, de facto, um bocado irrequietos a ler isto, porque, eminentemente, não percebemos nada. Possibilidades de quê? Imaginativa como? Sobre um fundo? Não será antes que foi ao fundo? Era mais lógico, não? Afinal a Lúcia trabalha na Casa dos Dias da Água e há dias em que a água é tanta, que vai tudo ao fundo, mas, claro, com «irrequietude e ironia»!
100.000€ para quê? Em primeiro lugar, para organizar documentos. A Sensurround organiza documentos. Neste caso, documentos da Paula Rego, que é uma artista sem documentação (já meteu os papeis mas nunca mais lhe disseram nada…).
O IA explica: «uma convergência entre as telas da pintora e um levantamento de depoimentos (recolhidos como em cadeia multiplicativa: dez participantes falam com mais dez e assim sucessivamente)». Claríssimo! Parece um daqueles cadáveres esquisitos em que o Cesariny era especialista! Dez gajos dizem uma coisa e os outros dez dizem outra e não tem nada a ver uma coisa com a outra. Põe-se tudo ao lado das telas da pintora e também não tem nada a ver!
Isto ainda não é nada. A grande novidade da Lúcia para este ano é a poesia. Poesia nos Dias da Água, poesia à chuva, um dilúvio de poesia? Não. A acta é luminosa. Leiam (e não reparem na gramática, por favor): «Outra ideia curiosa presente na programação integra o projecto Poemas no Metro, implicando viagens de actores aos pares, vestidos de túnica e descalços, recitando poemas em «roteiros» que incluem aspectos do real objectivo (paragens, apitos, etc.).» Oh sim, que ideia curiosa! As paragens, os apitos, o real objectivo! E os actores «aos pares», com bilhete de ida e volta! Percebe-se que uma parte substancial dos 100.000€ vai para as belas túnicas à romana e, sobretudo, para custear a renúncia aos sapatos. O balúrdio que não vai ser para curar o pé-de-atleta e as bolhas e os dedos entalados!
Aliás, o pormenor pedestre revela finalmente a real identidade da Lúcia Sigalho. Debaixo deste nome estapafúrdio ― Sensurround ― esconde-se, afinal, a Ordem das Carmelitas Descalças e, daqui para a frente, a Pancada de Molière tratará sempre a directora pelo seu nome espiritual: Irmã Lúcia. A Irmã Lúcia vai, pois, levar a poesia aos alienados que perdem a alma na interminável rotina quotidiana (trabalho → casa, casa → trabalho) da grande metrópole lisboeta. Abençoada!
E teatro? Também há teatro. A Irmã Lúcia prometeu partilhar a Casa dos Dias da Água, que tem sempre as portas abertas para artistas sem abrigo. É o caso do Miguel Guilherme e do Fernando Luís, coitados, que pediram à Irmã Lúcia se podiam fazer lá uma peça búlgara. A Irmã Lúcia, cheia de caridade cristã, disse que sim, que até lhe fazia jeito para concorrer aos subsídios do teatro, porque não há, eminentemente, subsídios para carmelitas descalças (nem para tratar de documentação).
A Sensurround, portanto, «acolhe» (é o que diz a acta, tal e qual) um espectáculo de fora que é a única coisa vagamente teatral que se vai fazer na Sensurround e que, por acaso, nem é a Sensurround a fazer. Resultado: 100.000€. Assim, o Miguel Guilherme e o Fernando Luís não têm de pagar nada à Irmã Lúcia. Quando muito, irão descalços para o Metro recitar poemas «sobre um fundo de irrequietude e ironia».
Entretanto, o IA tranquiliza o público: «Do lado de fora da casa, continuará o projecto Obras na Fachada.» Os grandes êxitos não se tiram de cena e este é já um êxito internacional: em breve irá em «deslocação a Luanda a convite da Trienal de Luanda» e não deve haver cidade que mais precise de obras na fachada. O projecto fica por aqui, mas quem vai fazer obras na fachada de Luanda bem precisa de 100.000€! Se calhar até é pouco. Fica para a próxima!
O IA, porém, está baralhado. Diz com sinceridade que «uma certa indistinção entre trabalho da companhia e iniciativas várias que se realizaram na «casa comum» dos Dias da Água pode não esclarecer por completo a verdadeira feição assumida pela companhia.» Que é como quem diz: mas afinal para onde é que vai o carcanhol? O IA não faz ideia nenhuma, mas, na dúvida, tomem lá 20 mil brasas e seja o que Deus quiser!
A acta da Irmã Lúcia não dá jeito nenhum para a tese de que a Ana Marin (ámen) é do PCP. Mas ajuda e de que maneira quem defende que este júri não joga com o baralho todo! De qualquer maneira, a Sensurround só levou 100.000€: não é pobre nem rica, é remediada. Não dá para tirar conclusões. A próxima será, eminentemente, melhor. Prometemos. Sem ironia. Um abraço e assim sucessivamente!
 
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A Casa da Boneca Henrik Ibsen (I)

2005-01-20


na fotografia Vanessa Agapito e Luzia Paramés - fotografia de Ramon de Melo

 
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«Ninguém se mexa! Mãos ao ar» (I)

PORTUGAL

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os
infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe
atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira, que o Infante
D. Henrique foi uma invenção do Walt
Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do
Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino
nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos
espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se
contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um
resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encon-
trar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e
idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce, que os
pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer
à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete, Salazar
estava no poder, nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra, tenho amigos que
emigraram, nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas
a nado na piscina municipal de Braga
ia propôr-te um projecto eminentemente nacional
Que fossemos todos a Ceuta à procura do olho que
Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

Jorge de Sousa Braga

 
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«Ninguém se mexa! Mãos ao ar»

 
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Oh Que Ricos Subsídios! (III)

2005-01-19
A CTC esmiúça sem piedade as actas do IA do MC

Candidatura 018 (ou «Novo Grupo», criado em 1982)

Meus caros, hoje vamos comentar a acta do Instituto das Artes (IA) sobre o Novo Grupo e temos uma novidade para vos dar! É uma inconfidência, esperamos que o IA e o João Lourenço nos perdoem.
Sabem que dramaturgo é que o Novo Grupo vai fazer em 2005? Não adivinham, pois não? Cá vai: BRECHT! É que nem vos passou pela cabeça, apostamos! E nem imaginam que peça de Brecht é que foi escolhida! Isso é que é uma absoluta surpresa, o insólito total, uma autêntica extravagância! Sabem qual? A Ópera de Três Vinténs, caramba!
Reparem: o Novo Grupo é um grupo novo, com uma miséria duns 23 anitos de idade. E Brecht a mesma coisa: um dramaturgo novo, o último grito do teatro mundial, sobretudo na recente Ópera de Três Vinténs! O IA foi sensível a tanto vanguardismo e vai daí, toma lá 605.000€, que não são propriamente 3 vinténs!
Assim de cabeça, dá por aí uns 121 mil contos, moeda velha. O Novo Grupo, se bem se lembram, é aquela companhia que actua no Teatro Aberto, Praça de Espanha. Ora, o Teatro Aberto é aqui como o nosso Teatro-Estúdio Mário Viegas: pertence à
Câmara Municipal, que o construiu. Diz a acta que o Novo Grupo goza de «apoios autárquicos nas despesas correntes do edifício, incluindo segurança», ou seja: não pagam luz, não pagam água, nem sequer largam um tusto para os seguranças! Em suma, o cacau é só para espectáculos. Como nós, mas nós numa salinha pequena, familiar, 200 m2 e é um pau, a gastar pouca água, pouca luz, poucos seguranças... Ora nós recebemos 35.000€, que nem para espectáculos dá. A ver se percebem. O Novo Grupo, que não paga nada pelo teatro onde se exibe, recebe 605.000€. Nós, que não pagamos nada pelo teatro onde nos exibimos, recebemos 35.000€. É justo, não é? É mais que justo! É o espelho fiel da alma imparcial e cega dessa santa padroeira do teatro português chamada Ana Marin!
A Ana Marin (ámen) esmerou-se a escrever a acta do Novo Grupo. Usa palavras nobres como «edilidade» e «laboriosos», canta elogios variados como «grande profissionalismo» ou «sólido profissionalismo» (referência à Catarina Furtado, de certeza), elabora conceitos arrojados como «trabalho de dinamização de públicos específicos» (a Ordem dos Advogados agradece a atenção), levanta dúvidas audazes sobre «produções menos conseguidas e opções repertoriais com menos interesse» (toma lá que já almoçaste!), arrisca neologismos futuristas como «relação interespectáculos», faz observações diplomáticas, em colaboração com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, sobre «a visita frequente à dramaturgia de expressão alemã» (Brecht e Heiner Müller, Brecht e Heiner Müller, Brecht e Heiner Müller…).
A Ana Marin (ámen) ficou encantada com o dossier do Novo Grupo! Diz que «está apresentado com cuidado» e a gente imagina logo capas cor-de-rosa, imagens a cores, papel de 60g no máximo, cabeçalhos e rodapés em português e alemão, numeração romana. Um mimo! E ainda não é tudo. Também está «logicamente repartido por 4 brochuras». Porquê 4? Porque a candidatura é para 4 anos e, portanto, 1 brochura para cada ano é que é lógico. 4 anos em 2 brochuras ou desdobrados por 12 brochuras não seria lógico! Lógico é fazer 4 brochuras por cada «período quadrienal», na bela linguagem soviética dos camaradas do IA.
Sente-se mesmo assim, nas entrelinhas da acta, a tristeza da Ana Marin (ámen) por não poder dar ao Novo Grupo o carcanhol que o Novo Grupo pediu ― se faz favor, com muita educação ― e que totalizava a módica quantia de 1.051.723€, destinada ao Brecht, ao Michael Frayn e a «um exemplo de teatro electroacústico» que, mesmo sendo só um exemplo, era coisa para gastar um balúrdio de pilhas e precisar de colunas novas. «Apoio especial para equipamento», explica a acta. Estão a ver, não é? Um milhão de € para o Novo Grupo! Ai, este João Lourenço é um ingénuo… Então imaginava que podia receber mais do que o Teatro Nacional da Cornucópia? Francamente! Não ficou longe, é verdade, se levasse mais 20.000€ (4 mil contos, uma ninharia!) ficavam empatados no topo da tabela. Mas o Teatro Aberto tem acesso a deficientes e detecção de incêndios, um «espaço interior» com 2 salas, uma bela localização entre a mesquita e a Gulbenkian, não se pode querer tudo!
O Novo Grupo, porém, merecia. O IA sabe que o Novo Grupo se dá à pachorra de fazer dramaturgia portuguesa, com «o compromisso ― que vem honrando ― de participar no Grande Prémio de Teatro Português (que mantém em parceria com a SPA)». Ora, se forem ver à acta da Cornucópia, o IA não alimenta ilusões quanto à qualidade da (passamos a citar) «nossa (modesta) dramaturgia que seguramente nenhum outro país poderá (ou quererá) fazer» (textual!). Portanto, dos 605.000€, pelo menos 25.000 são para agradecer ao Novo Grupo a perda de tempo com uma dramaturgia que não vale um corno e que nem sequer o Burundi está interessado em representar. Está bem visto!
Esta missão de caridade vale por si mesma, mas vale mais ainda pelo conjunto em que se insere. O Novo Grupo é a Madre Teresa de Calcutá do teatro português. Só o Novo Grupo é que se lembra de fazer «acordos interessantes com determinados segmentos de população», não sabemos bem que segmentos são, mas com certeza deve ser na grande tradição brechtiana de levar a cultura e a arte à classe operária. O Novo Grupo vai ao ponto, imaginem, de contactar «associações várias, sindicatos ou comissões», como se fosse uma delegação do Inatel! Comissões, que comissões? Bem, pelo que diz a acta, parece que ainda há em Portugal comissões de moradores, pelo menos na Praça de Espanha, a ver pela estrondosa iniciativa do Novo Grupo chamada «Deixe o carro à porta de casa e vá a pé ao Teatro Aberto». Ecologia, arte, urbanismo, saúde e desporto em harmonia na colectividade da Palhavã!
Mas atenção, João Lourenço! Recebe um conselho nosso, que te damos com amor e carinho. Não faças produções «menos conseguidas», não caias em «opções repertoriais com menos interesse», porque olha que os eminentes críticos teatrais do IA andam em cima de ti! E eles não perdoam! Se não te pões a pau, levas com 35.000€ como nós, tu vê lá! Não sabias que a Santa Ana Marin (ámen) fazia parte da Associação dos Críticos de Teatro, pois não? E cede-lhes o prédio do IA para as reuniões, que ela própria dirige com mão de ferro!
Continua a votação: o júri do IA não joga com o baralho todo, ou a Ana Marin (ámen) é do PCP? Votem, não se abstenham, participem na vida pública do país! E preparem-se para a próxima acta, que ainda é pior que esta! Até amanhã, camaradas!
 
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Entrevista de Mário Viegas a Fernando Dacosta, PÚBLICO, 28-I-1993

2005-01-18
[Para o anónimo que fez a amabilidade de nos escrever 3 linhas e que tem medo que "o Mário ande por lá às voltas", recebemos a resposta do Mário. Aqui vai:]

"(...) Eu sempre fui muito falador, muito crítico, muito má língua, má língua no bom sentido. Habituei-me a sê-lo antes do 25 de Abril, era uma caracteristica da minha geração... não gosto da palavra geração.
- Não acredita em gerações?
- Não, não acredito, não há gerações; há, sim, grupos de pessoas com certas afinidades. (...)"

"(...) Há colegas meus que investem milhares de contos em montagens, depois a gente vai ver e não vê esse dinheiro em cena, nem em talento, nem em produção. (...)"

"(...) Temos, evidentemente, uma grande ajuda da Câmara, que é a cedência do teatro e a climatização da sala. O conforto do público que nos acompanha é decisivo. (...)"

"- Defende o vedetismo?
- Defendo. Nunca gostei de elencos por ordem alfabética, por ordem de entrada em cena. A Maria Cachucha não é a mesma coisa que a Palmira Bastos, o Zé da Esquina não é a mesma coisa que o Alves da Cunha. O público vai ao teatro para ver os actores; por isso, eles têm que ser cada vez mais valorizados. (...)"
 
posted by CTC at 14:59, |

Entrevistas e Artigos

2005-01-17
 
posted by CTC at 23:55, |

2005-01-15
"Porque, porra!, o Sol não cospe!" Dora, O Mocho e a Gatinha (Manhoff)

"Claro, uma pessoa sensível como tu não se dá com javardos!" Marcelino, O Mocho e a Gatinha (Manhoff)
 
posted by CTC at 19:57, |

"Porque, Deus sabe, os milagres não acontecem todos os dias." Nora, A Casa da Boneca (Ibsen)

"Uma pessoa que já se vendeu por outra, não volta a fazê-lo." Cristina, A Casa da Boneca (Ibsen)
 
posted by CTC at 19:45, |

Pancadas Soltas

 
posted by CTC at 18:00, |

Oh Que Ricos Subsídios! (II)

2005-01-14
A CTC diverte-se a esmiuçar as actas do IA do MC

Candidatura 017 (alcunha: «O Bando»)

Olá! Cá estamos para mais uma fantástica acta do Instituto das Artes (IA), editor da Obra Completa da Ana Marin ― esse génio da burocracia ― em envelopes A4 com aviso de recepção!
Conhecem Palmela? É a terra do Bando. Conhecem o Bando? Ninguém conhece. Vivem todos na clandestinidade, à excepção do chefe: chama-se Brites, uma espécie de Viriato da Margem Sul.
O IA adora o Brites. Deu-lhe a bela maquia de 450.000€ e só não deu mais, chora a acta, por causa da «contenção orçamental». É uma promessa: quando a retoma atirar às urtigas a chatice da contenção, há-de chover cacau suficiente para que o Bando seja promovido a Tribo!
Os provisórios 90 mil contos estão muito bem justificados nesta acta comovente até à gargalhada. Ora leiam: «Apesar de ocupar um lugar privilegiado em Palmela (uma quinta em Vale de Barris, de uma considerável extensão, cedida pela Câmara Municipal), as instalações de que se serve para apresentar as suas produções são manifestamente inadequadas, barracões sem condições de conforto.» (Desculpem, é só secar as lágrimas, já continuamos.)
A lógica neo-realista do IA é imbatível. A trupe do Vale de Barris esfalfa-se a produzir em instalações «manifestamente inadequadas» e, vai daí, merece um prémio de consolação: 450.000€ para o Bando, de bandeja. Adequar as instalações? Dar conforto aos barracões? Qual quê! Fica assim, não se macem com os espectadores! Afinal, o Bando não é dono da quinta, limita-se a «ocupar», é um bando de okupas que invadiu um «lugar privilegiado»!
Temos de ser uns para os outros. O IA é muito para o Bando. Não só no pilim, como nas palavras. Passa página e meia a lambê-lo de elogios que é para o Bando não ficar triste, coitadinho. O Bando «tem sabido renovar-se» (está irreconhecível!); o Bando acolhe o público «em atmosfera de cumplicidade» (há festa no barracão!); o Bando constrói «dispositivos cénicos de reconhecido valor plástico e forte sentido simbólico» (a Mónica Garnel está melhor?); o Bando reencontra-se com «uma ideia de inserção comunitária e gosto da ruralidade» (vá, pega na enxada!). A gramática do elogio é má? Não. É plástica, cúmplice, de forte sentido simbólico: o IA exprime-se em dialecto de Palmela!
Agora reparem nisto: «É um dos grupos que mais se preocupa em elaborar reflexão sobre o seu próprio trabalho, tendo publicado até ao presente dois manifestos e um livro (sobre os 20 anos do Bando).» Ou seja: são rústicos mas não são broncos. Pasmem: 2 manifestos e 1 livro em 20 anos! Dá uma média vertiginosa de 1 manifesto e 1/2 livro de 10 em 10 anos, uma avalanche reflexiva ― Stanislavski encafuado no Vale de Barris! Os célebres manifestos do Bando, quem não os conhece? Um bando de 2 manifestos perdidos numa época que se marimba para manifestos. Olhamos para o anacronismo e ficamos em choque: então eles publicam 2 manifestos (e 1 livro) e só levam 450.000€? Oh maldita contenção!
E teatro, o Bando faz teatro? Claro. Nas pausas de abundantes livros e manifestos, garante o IA, «têm podido desenvolver aspectos de localização do teatro nos espaços naturais (uma forma de site-specific, se quiséssemos adoptar um certo jargão anglo-saxónico)». Mal se percebe, é verdade, mas fica logo claro como azeite virgem quando o IA dá o exemplo da estrondosa «realização internacional» do Bando que se chamou «Uma noite de teatro europeu no meio das oliveiras». Se podemos dizer «no meio das oliveiras», para quê os aspectos de localização que se desenvolvem, para quê adoptar em vão «um certo jargão anglo-saxónico»? O «site-specific» é lá para os saxões. Português castiço é o teatro no meio das oliveiras. Os palmelenses distinguem as duas coisas perfeitamente: pelas azeitonas que lhes caem em cima da cabeça quando vão ao Bando para ver «teatro europeu». E a moda pegou: o Berliner Ensemble vai encomendar ao Bando «Uma tarde de teatro germânico no meio das couves-galegas»!
Mas o Bando não se fica pela Europa. Atira-se ao teatro português. E escolhe autores que são o máximo da teatralidade nacional: Ramos Rosa, Torga, Teolinda Gersão, Hélia Correia, «entre outros», diz a acta. Como novidade, jurou a pés juntos ao IA que vai «encomendar a autores peças originais» (e adaptará Inês Pedrosa, mas aí não há novidade). Ora, toda a gente conhece o episódio do amigo do Brites que, um dia, lhe perguntou, à mesa do café: «Ó Brites, pá, quando é que tu te decides a fazer peças?» «Peças?! O que é isso?», perguntou perplexo o chefe do Bando. A acta do IA mostra que o amigo se deu à pachorra de lhe explicar! Lá está: temos de ser uns para os outros.
Esse anónimo sabe mais de teatro que o IA (não é difícil, valha a verdade). Só o IA é que se lembrava de achar «não apenas razoável, mas também, e sobretudo, recomendável» que o Bando reponha um espectáculo inspirado no Ensaio sobre a Cegueira. Já não basta o Saramago escrever livros? Também precisa dum Bando a fazer divulgação pelas aldeias? Das duas uma: ou este júri não joga com o baralho todo, ou a Ana Marin é do PCP!
Qual das duas hipóteses é melhor? Pensem nisso e preparem-se para a próxima acta. Um abraço, camaradas (good fellows, se quiséssemos adoptar um certo jargão anglo-saxónico)!
 
posted by CTC at 18:39, |

Oh Que Ricos Subsídios! (I)

2005-01-13
A CTC comenta à lupa as actas do IA do MC

Candidatura 022 (também conhecida como «Cornucópia»)

Mandaram-nos para aqui um envelope cheio de papéis, com aviso de recepção e tudo. Vamos lá ver o que será. Olha, são as actas dos subsídios do Instituto das Artes para o teatro e para o resto das artes (menos o cinema). Olhámos uns para os outros: vamos ler, não vamos ler? Já agora, que tiveram tanto trabalho a mandar isto pelo correio, até parece mal deitar para o lixo.
Uma baralhada! As páginas não vinham numeradas, não fizeram índice, enfim, uma coisa feita às três pancadas. Paciência. Lá nos orientámos no meio da trapalhada e fomos logo ver quanto guito é que nos tinham dado. 35.000€. Não foi preciso máquina de calcular, fizemos as contas de cabeça: não chega para pagar a Segurança Social e o Fisco, mas ajuda: vai todo para lá e não se pensa mais nisso. Quer dizer: o Estado dá-nos massa para nós darmos massa ao Estado. Está bem visto!
Adiante. Fomos ver os outros. Dos pobrezinhos e honrados como nós (e há muitos, com a graça de Deus!) não queremos saber: amanhem-se que a gente cá também se amanha.
Estávamos curiosos era de ver a quem é que eles tinham dado mais carcanhol. Talvez houvesse novidades. Não, nada de novo: a Cornucópia levou 625.000€ e ficou outra vez em primeiro, para não variar. 625.000€: nada mau! Em moeda antiga, são 125 mil contos, que dão um jeito do caraças. Somem isto aos êxitos de bilheteira e não é nada de deitar fora. Também não admira. O pessoal do júri escreveu lá na acta que a Cornucópia requer «uma consideração paralela a um Teatro Nacional», está lá para quem quiser ler. Reparem bem: «uma consideração paralela a um Teatro Nacional», não é brincadeira. As coisas mudam logo de figura, ou não? A Cornucópia está no plano do Teatro Nacional numa altura em que, por coincidência, não há Teatro Nacional! Deram 625.000€ a um Teatro Nacional que se chama, por acaso, Teatro da Cornucópia. Muito injusto! A Cornucópia é um Teatro Nacional que, do ponto de vista do bagulho, ainda está longe de lá chegar, porque senão recebiam para aí uns 5.000.000€ no mínimo e ainda levavam com o alto patrocínio da PT. Bem vistas as coisas, ficaram a perder 4 milhões e 800 mil € ou mais! Até faz pena. O MC, entretanto, é que poupou esse granel todo: está bem visto!
Confusos? Ainda não é nada, tenham calma. Na acta da Cornucópia, explica-se que a Companhia do Luís Miguel só tem «uma reduzida equipa artística residente (3 actores) e um corpo igualmente mínimo de apoios técnicos e administrativos». Para Teatro Nacional, é pouco, convenhamos. Misérias de um Teatro Nacional da Rua Tenente Raul Cascais. Imaginem o que seria o Teatro Nacional ― o verdadeiro, o do Rossio, o que não existe ― só com três actores com emprego garantido e o resto a contrato precário. Não se acredita. Mas é a vantagem de não ser bem um Teatro Nacional, só uma coisa parecida com um Teatro Nacional que, se pudesse, era mesmo um Teatro Nacional. Reparem: a acta, além do mais, diz que a Cornucópia nem sequer tem na sala «acesso a deficientes e detecção de incêndios» (o português é mau mas não é nosso). Deve ser por isso que nunca fizeram o Macbeth: têm medo que aquilo arda tudo e nem dá tempo para chamar os bombeiros! Quer dizer: o IA reconhece que a Cornucópia é uma companhia ilegal, que a bem dizer deveria estar fechada e proibida de apresentar espectáculos, mas dá-lhes 625.000€ na certeza de que nunca vão gastá-los no «acesso a deficientes» e na «detecção de incêndios». Fica para a próxima. Daqui a 5 anos, já o vasto público do Teatro Nacional da Cornucópia pode estar descansado: nessa altura, a D.ª Amélia Luís Miguel Rey-Colaço Cintra tratará de alargar aos «deficientes» o privilégio de irem ao D. Maria do Bairro Alto sem saírem de lá chamuscados. Até lá, fiem-se na Virgem e não se aleijem, por favor!
Entretanto, se querem ver o Teatro Nacional da Tenente Raul Cascais livrem-se de morar fora de Lisboa. Diz a notável acta que os cornucópios se especializaram na «produção «intra muros» (pelas despesas inerentes a eventuais deslocações)», que é como quem diz que os 625.000€ são todos para consumo no estabelecimento. A única excepção ― nem de propósito! ― vai para as co-produções com o Teatro Nacional de S. João, que é pouco mais ou menos a delegação da Cornucópia na Invicta. Quer dizer: como o Ricardo Pais entra com o cacau para as despesas, eles então não se importam de ir passear ao Porto, com a vantagem de que o S. João tem «acesso a deficientes» e «detecção de incêndios», um luxo! Toda a gente a dormir no Hotel Batalha sem gastar um cêntimo dos preciosos 625.000€ que ficam inteiros ― 350 contos por dia, em moeda antiga ― para deslumbrar o mundo e o Bairro Alto com os Brecht, os Bond, os Fassbinder, o diabo a quatro!
Nós ficávamos aqui o dia todo a comentar a acta da Cornucópia, mas temos mais que fazer, infelizmente. Fica assim. Para a semana, comentaremos em pormenor os 605.000€ do Teatro Aberto (a abertura vai desde Brecht a Catarina Furtado) ou os 470.000€ dos Artistas Unidos ao Silva Melo, conforme nos apetecer. Um abraço para todos, bom ano e, claro, um xi-coração especial para a Ana Marin!
 
posted by CTC at 18:27, |

Oh Que Ricos Subsídios

 
posted by CTC at 18:25, |

Carta de (más) Intenções

Saudações teatrais!

A Companhia Teatral do Chiado chega ao mundo dos blogs! Já não era sem tempo. Tanta gente que nos pediu: façam um blog, façam um blog, os outros são uma chatice! Pronto, pronto, já cá estamos.
Chamámos-lhe Pancada de Molière e isto precisa de explicação. Cá vai.
A ideia é simples: o blog é para dar pancada. Nos outros, claro. Tomamos a liberdade de bater em quem nos apetecer, mas só com palavras. No resto, somos muitos pacíficos, acreditem. Então e o Molière? O Molière fica sempre bem (é francês, percebem?) e, além disso, era um tipo do teatro e no teatro (no teatro como deve ser) batem-se as pancadas de Molière antes de subir o pano.
Então e é só para dar pancada, isso não vai contra o Molière, que era uma pessoa séria?
Qual quê! O Molière fartou-se de dar pancada e nós aqui, afirmamos o direito de dar pancada no próprio Molière, se nos der na veneta. É a única regra. Ficamos à espera dos vossos comentários, estejam à vontade, digam o que quiserem, o pior que pode acontecer é levarem pancada na volta do correio. Divirtam-se!
 
posted by CTC at 16:29, |